João Pimenta tem como princípio subverter tudo, esticar os parâmetros do que se considera moda masculina. No desfile “Das Tripas Coração”, mistura Renascimento com entranhas, esqueleto com drapeado, rito com sacrilégio. E nos vira do avesso, com majestade e beleza.
FICHA TÉCNICA Estilo, Criação e Concepção: João Pimenta Conceito: Renascimento – Anatomia Humana Formas: Silhuetas amplas, bufantes e arredondadas, desconstrução da alfaiataria, drapeados degagê aplicados em diversas localizações Cores: Branco, off-white, salmão, rosa, bege, terracota, bordô, vinho e roxo Matéria Prima: Tyvek, sarja acetinada, tule de malha, malha de algodão, malha ribana, tafetá de seda e poliéster, zibeline de seda e poliéster, nylon, linho, veludo de algodão e poliéster, georgette, chiffon, jacquard e algodão reciclado Intervenções têxteis: Resina acrílica emulsionada e impermeabilizante, matelassê, colagens, aplicações em crochê e rendas e detalhamento em torções Intervenções artísticas: desenhos e pinturas dos artistas convidados: Pinturas Florais: @tillandsia_tropical_creations Pinturas a óleo: @fernando.m.mattar Pinturas de esqueletos e vísceras: @wessss.s Trabalho de superfícies: @zeluisandrade Modelagem: @alecavalcantez , @jessica_sugimoto, Marcia Cristina de Almeida Design de Acessórios: @lunatikko Alfaiataria/Costura: Ana Oliveira, @magna2702, Maria Rosa, Zeneide Brito Passadoria: Vivalda Oliveira *** Produção Executiva e Casting: @rodrigorosa___ Marketing: @emmanudamasceno Make-up/Hair: @ricardodosanjos e Equipe Senac @gabrielsimplicio Direção de Desfile: @roberta.marzolla Vídeo Arte: @rogeriovelloso@calma.works Trilha original e produção musical: @femaiamaia Violoncelo, viola, violino e viola caipira: @thiagobrisolla_ Mixagem e programação: João Baracho Trilha Gravada no Juá Estúdio. Camarim: @aninha_polizel Backstage: @talitadelira e Alunos SENAC CAS
Agradecimentos: Tati Putti, Karina Bottini, Viviane Kozesinski, Livia Ribeiro, Lael Moura, Emmanuel Damasceno, Zé luis, Thiago Mangueira, Lucas Barros, Talita de Lira, Paulo Borges, Gabriel Guimaraes, Mercedes Tristão, Renata Bastos, Gabriel Aquino, Fernanda Maia, Luiz Amorim, Fran Forbes, Airton Martins, Vera Sala e Thiago Staudht.
Se há tempos o povo da moda revela um certo cansaço com a apresentação das coleções no formato de desfile, a pandemia do SARS-CoV-2 foi a força motriz que faltava para a mudança.
Desde fevereiro de 2020, quando o alarme sobre o espalhamento da Covid-19 começou a soar, até janeiro de 2021–mês em que costumam acontecer os desfiles de Alta-Costura em Paris–, grandes marcas, no mundo todo, passaram a buscar alternativas para o desfile presencial. E a Dior, que há tempos produz filmes de moda memoráveis para promover seus artigos de luxo, decidiu investir em mais uma criação cinematográfica para apresentar a coleção Dior de Alta-Costura Primavera-Verão 2020-2021.
O curta-metragem Le Chateau du Tarot, dirigido por Matteo Garrone, coloca em cena uma mulher em busca da própria identidade. Num percurso labiríntico e simbólico por um castelo medieval, ela interage com alguns arcanos do tarot: a Sacerdotisa, a Temperança, a Justiça e a Morte.
O clima de fábula onírica é reforçado pelas roupas luxuriantes, pela direção de arte impecável, e pela boa atuação da atriz franco-italiana Agnese Claisse. Assista.
https://youtu.be/jYOrGvVh7mk
Primeiro segredo: o tarô de Christian Dior
Pouca gente sabe, mas o tarô faz parte da história pessoal de monsieur Dior. Durante a Segunda Guerra Mundial, sua irmã, Catherine Dior, que fazia parte da Resistência Francesa, desapareceu. Ela foi presa pela Gestapo, levada para o campo de concentração feminino de Ravensbrück. Depois, foi tranferida para a prisão militar de Torgau e, finalmente, obrigada a trabalhar numa fábrica em Leipzig.
Segundo Maria Grazia Chiuri, atual diretora criativa da grife, foi nessa época que o estilista conheceu o tarô. “Acho que ele estava tão assustado com a situação da irmã, que provavelmente recorreu às cartas de tarô para ter esperanças de que ela voltaria”.
Depois da libertação, em 1945, Catherine recebeu várias medalhas de honra pelos atos de resistência. Detalhes desse período estão prestes a ser revelados em um livro escrito por Justine Picardie –editora chefe da Harper’s Bazaar inglesa– que deve ser lançado em breve.
E foi num outro livro que Maria Grazia Chiuri encontrou inspiração visual para a coleção. O romance de Italo Calvino, “O Castelo dos Destinos Cruzados”, fez com que ela ficasse fascinada pelas cartas de tarô Visconti-Sforza, criações excepcionais que datam do século 15.
No vídeo abaixo, Roger S. Wieck, chefe do departamento de Manuscritos Medievais e Renascentistas e curador da Biblioteca Morgan em Nova York, relata a história do tarô Visconti-Sforza. O baralho, que tem o nome de duas das famílias mais nobres de Milão, foi encomendado como uma demonstração de prestígio e, curiosamente, não tinha nada a ver com esoterismo.
https://www.youtube.com/watch?v=tf-vjFG6ihw
No próximo vídeo, você fica sabendo um pouco mais sobre o interesse de Christian Dior pelas artes divinatórias.
https://www.youtube.com/watch?v=kpoRmBhx9WQ
Segundo segredo: a manufatura preciosa da coleção Dior de Alta-Costura Primavera Verão 2020/2021
Um dos fundamentos da Alta-Costura é a utilização de técnicas manuais refinadíssimas, que nem sempre se consegue perceber ao assisitir a um desfile ou vídeo. Para criar as roupas estupendas que vemos na passarela, as Maisons francesas, muitas vezes, recorrem ao savoir-faire de artistas e pequenos ateliês de costura. Confira, abaixo, dois exemplos disso na coleção Dior de Alta-Costura Primavera-Verão 2020-2021.
Vestido A Protagonista
Foto: Divulgação Dior
O especialista Jean-Pierre Ollier foi escolhido por Maria Grazia Chiuri para recriar uma magnífica técnica de découpage veneziana, original do século 18, para o vestido “A Protagonista”. Conhecida como “lacca povera”, essa técnica usa motivos serigrafados que são pintados à mão, aplicados ao tecido e, finalmente, bordados. Maravilhe-se!
Vestido Miss Dior
Foto: Divulgação Dior
O emblemático vestido “Miss Dior” apareceu com uma nova silhueta, em dourado fosco, com um sutiã corseletado, roletês de tecido levemente envelhecido, e aplicações de flores cuidadosamente bordadas e franzidas. O Atelier Paloma foi o responsável pelo trabalho primoroso, que consumiu 800 horas!
Uma matéria do British Journal of Photography chamou minha atenção para o trabalho de Ngadi Smart. A artista visual, ilustradora e fotógrafa, é natural de Serra Leoa (país da África Ocidental) e está radicada entre Londres (Reino Unido) e Abidjan (Costa do Marfim).
Ngadi Smart é uma das finalistas do prêmio Portrait of Humanity 2020, um concurso global de fotografia que “nasceu com a missão de provar que há mais coisas a nos unir do que a nos separar”. A iniciativa é da 1854 Media –organização de mídia digital responsável pelo British Journal of Photography.
“Latitude” 5°13′32.5.″ N, 3°45′17.5″ W, é o título da série de fotos que participa do prêmio, publicada originalmente na revista Atmos. Ela contrapõe modelos usando roupas e acesssórios sustentáveis, feitos por estilistas locais, a cenários decrépitos da cidade de Grand-Bassam, Costa do Marfim.
Gostei especialmente do contraste da arquitetura colonial francesa, em ruínas, com as cores exuberantes das roupas e os acessórios indígenas, que sinalizam a resistência dos povos originários, como os Nzima.
“Os povos indígenas compartilham uma relação espiritual, cultural, social e econômica com suas terras tradicionais”, diz Smart. “Mas com a falta de investimento em infraestrutura ambiental, o futuro de pequenas comunidades e culturas como esta está ameaçado – e isso acontece em todo o mundo.”
Reproduzo aqui a ficha técnica do trabalho, compartilhado pela autora em seu instagram:
Em setembro de 2019, a Japan House São Paulo apresentou a exposição NUNO – POÉTICAS TÊXTEIS CONTEMPORÂNEAS, com os tecidos sustentáveis, inovadores e poéticos da designer japonesa Reiko Sudo.
Desde 1994 à frente do laboratório de pesquisa têxtil NUNO –palavra que significa tecido, em japonês, e se pronuncia ‘nunô — Reiko Sudo realiza um trabalho experimental que consiste em misturar materiais, técnicas e processos, para criar tecidos sustentáveis, intrigantes e únicos. Em muitos deles, técnicas ancestrais da tecelagem oriental são reinterpretadas com tecnologia de ponta.
O resultado é tão revolucionário que é reconhecido internacionalmente por ampliar as fronteiras do design têxtil contemporâneo.
A designer japonesa Reiko Suda em meio a alguns dos seus tecidos sustentáveis. Foto: Alisson Louback
Adélia Borges, crítica e historiadora de design que assina a curadoria da mostra em parceria com a consultora Mayumi Ito, comenta: “me encanta essa qualidade do design japonês de se basear na tradição para dela extrair uma inovação muito grande. Não há rompimento, há uma continuidade.”
A dupla de curadoras selecionou 35 tecidos para a exposição, com matérias-primas incomuns como fibra de bananeira, papel, aço inox, e plástico; ou convencionais, como seda, feltro, algodão e poliéster. As técnicas utilizadas na fabricação desses tecidos variam entre o manual e o industrial. Os toques poéticos ficam por conta de tingimentos feitos à partir de ferrugem, dobraduras em formato de origami e até mesmo da inserção de plumas.
Na Japan House, os tecidos sustentáveis de Reiko Sudo foram expostos em grandes painéis. Foto: Alisson Louback
A variedade e a beleza das tramas encanta o olhar e convida ao toque. Por isso, Adélia Borges e Mayumi Ito disponibilizaram, em um mural, pedaços dos artigos podem ser tocados pelos visitantes.
A expografia, idealizada por Pedro Mendes da Rocha, explora o caráter ancestral da tecelagem na história da humanidade. Dos galhos de uma árvore estilizada, pendem os tecidos inovadores.
A relação entre corpo humano e tecido remonta aos primórdios da civilização. “O tecido é o primeiro abrigo do homem. Quando ele começa a se cobrir com peles de animais para se proteger do frio, cria a primeira interferência de design sobre o corpo”, explica Adélia Borges.
Tecidos sustentáveis e inovadores
Em termos de sustentabilidade, há tecidos feitos com materiais que seriam descartados, como o kibiso, invólucro do casulo da seda, que por ser uma parte mais rígida, era usado apenas em produtos de baixo valor agregado. Através de pesquisas, a equipe da NUNO conseguiu que a fibra do kibiso chegasse a um décimo da sua espessura original, ganhando maciez, flexibilidade e novas possibilidades de uso. Outro exemplo é o reuso de tecidos encalhados, reinventados numa espécie de patchwork contemporâneo.
Tecido reciclado de feltro na exposição NUNO. Foto: Alisson Louback
Por considerar essencial o processo de criação dos tecidos, Adélia Borges incluiu na mostra, vídeos e um mural, que exibem várias etapas da pesquisa têxtil. “Design não é uma inspiração que cai do céu, há um desenvolvimento, um método. Inclusive, vários desses tecidos possuem patentes, mostrando que há um grau de inovação muito alto”, diz.
A programação contou, ainda, com o seminário Diálogos Nipo-Brasileiros – Poéticas Têxteis Contemporâneas.“Fala-se muito sobre os caminhos dos estilistas, sobre o design de mobiliário, mas não sobre tecidos. O têxtil é um tema muito pouco debatido”, diz Adélia.
Tecido sustentável feito com fitas. Foto: Alisson Louback
Um versão dessa matéria foi publicada originalmente na coluna sobre moda sustentável do site BEMGLÔ.
No aniversário de 20 anos da morte da Princesa Diana, o portal de casamentos iCasei me pediu uma matéria sobre a evolução do estilo de Lady Di. Apesar de nunca ter sido fã da monarquia britânica, gostei de pesquisar os looks e de entender como foi que a garota tímida, fã de vestidos cheios de babados, se tornou a mulher sexy e segura de si que circulava no jet set mundial. Confira a seguir!
Princesa Diana: um ícone de estilo que jamais será esquecido
Vinte anos após a morte da Princesa Diana, revisitamos o estilo da inglesa que se tornou referência de elegância e fonte de inspiração para as mulheres
“Vinte anos após sua morte, a Princesa Diana está sendo reconhecida como uma das mulheres mais bem vestidas da história, ao lado de ícones como Jackie Kennedy e Audrey Hepburn.” Quem afirma isso é Eleri Lynn, curadora da exposição Diana: Her Fashion Story, inaugurada em fevereiro deste ano no Kensington Palace, em Londres.
A exposição está centrada na evolução do estilo de Diana, de jovem bem-nascida e retraída, adepta de roupas românticas com muitos frufrus, até a mulher elegante e segura que se tornou antes de morrer, tragicamente, num acidente de carro em Paris, aos 36 anos. Para entender esta trajetória, é preciso contextualizar as circunstâncias em que Diana Frances Spencer foi catapultada para a fama.
Em fevereiro de 1981, quando seu noivado com o Príncipe Charles foi anunciado pelos porta-vozes da realeza britânica, Lady Di passou a ser o centro das atenções da imprensa de grande parte do mundo. Até aquele anúncio, o casal havia se encontrado apenas 12 vezes.
Poucos meses depois, em julho de 1981, a jovem de 20 anos entrava na Catedral da Saint Paul, em Londres, vestida de noiva, para protagonizar o maior casamento real do século 20. A cerimônia reuniu 3.500 convidados e foi transmitida pela TV para cerca de 1 bilhão de pessoas.
Lady Di e o visual princesa romântica
Era uma outra época. Não existiam stylists a serviço das famosas para vesti-las de forma impecável em qualquer tipo de evento. A Princesa Diana teve que se virar sozinha, com a ajuda dos costureiros que tradicionalmente vestiam a nobreza e a família real, como David Sassoon, da Bellville Sassoon, Victor Edelstein e Gina Fratini. Neste período, prevaleceram looks românticos com muitos babados, saias rodadas e brilhos, com um visual típico de princesa de conto de fadas.
Grávida de seu primogênito, Diana usa um vestido da Bellville Sassoon, em 1982
Vestido verde esmeralda de Graham Wren, num baile de gala em 1981
O início da modernização do estilo da princesa, neste look de 1983, de Bruce Oldfield
O glamour maduro da Princesa Diana
Mas Diana logo percebeu que aquele estilo cheio de adereços e mangas bufantes não era fotogênico. Por volta de 1985, com a ajuda da designer francesa Catherine Walker (que desenhou mais de 500 vestidos para ela), desenvolveu um novo visual, com roupas minuciosamente modeladas para que fotografassem bem em todos os ângulos. A silhueta passou a ser limpa e mais ajustada, com um glamour adulto e refinado. Victor Edelstein e Versace foram outras grifes escolhidas por Diana neste período.
As mudanças de estilo foram percebidas pela mídia e pela audiência. Lady Di passou a chamar mais atenção do que o Príncipe Charles nas aparições públicas. No ano de 1994, o guarda-roupa da princesa tinha muitas centenas de vestidos e um valor estimado de 1 milhão de libras. Em contrapartida à cifra astronômica, considera-se que a Princesa Diana foi a maior divulgadora da moda britânica.
Longo branco assimétrico que ressalta os ombros
Vestido da dupla de estilistas David e Elizabeth Emanuel
Vestido longo estampado tomara-que-caia
Estilo, caridade, separação e ousadia
Por volta de 1992, Lady Di tinha consciência de que era uma das mulheres mais fotografadas do mundo, dominava sua imagem, e era admirada, não só pela beleza e estilo, mas pelo trabalho de caridade, apoiando causas como a luta contra a AIDS e o combate às minas terrestres. O casamento, no entanto, estava em ruínas desde a metade da década de 80. Em 1992, ela e Charles se separaram. O divórcio foi concluído em 1996.
Depois disso, a Princesa Diana se viu livre para aperfeiçoar sua imagem, sem as restrições impostas pelo protocolo da família real, que pregava um corpo sempre coberto e os não permitia decotes. Ela passou a usar peças de designers de várias nacionalidades e explorou mais a sensualidade, sem exageros. Adorava mostrar os braços bem torneados e as costas atléticas. Por isso, vestidos tomara-que-caia, modelos com um ombro só, e decotes nas costas eram escolhas frequentes.
Outro fator fascinante sobre o estilo da Princesa Diana é que, mesmo fazendo parte da nobreza e tendo que seguir muitas regras e tradições, ela se divertia com a moda e chegava até mesmo a ousar. Lady Di foi a primeira pessoa da família real a ser fotografada usando calças compridas num evento noturno, por exemplo.
Princesa Diana usa tailleur com calças compridas em evento social
Em 1982, durante a turnê real pela Austrália, Diana usou uma gargantilha de diamantes e esmeraldas como tiara, no meio da testa. Será que a Rainha Elizabeth aprovou? Tenho minhas dúvidas.
No mês de maio de 1996, a Lady Di causou furor ao comparecer ao tradicional Baile de Gala do Metropolitan Museum, um importante evento da indústria da moda, usando um vestido-camisola de John Galliano, então recém-contratado pela Maison Dior. Dizem que ela estava preocupada com o que seu filho William pensaria daquele visual desnudo.
Em resumo, pode-se dizer que Lady Diana Spencer soube desenvolver uma elegância muito além das tendências do momento, de acordo com sua personalidade. Isso, junto com o seu inegável carisma, transformou-a num ícone de moda – não da moda. Tanto é assim que, nas fotos dela, sempre enxergamos primeiro a mulher e, depois, a roupa.
Por Biti Averbach Publicado originalmente no site iCasei em 30/08/2017. Fotos: Reprodução