Categoria: Portfólio

  • NUNO: tecidos sustentáveis, inovadores e poéticos

    NUNO: tecidos sustentáveis, inovadores e poéticos

    Em setembro de 2019, a Japan House São Paulo apresentou a exposição NUNO – POÉTICAS TÊXTEIS CONTEMPORÂNEAS, com os tecidos sustentáveis, inovadores e poéticos da designer japonesa Reiko Sudo.

    Desde 1994 à frente do laboratório de pesquisa têxtil NUNO –palavra que significa tecido, em japonês, e se pronuncia ‘nunô — Reiko Sudo realiza um trabalho experimental que consiste em misturar materiais, técnicas e processos, para criar tecidos sustentáveis, intrigantes e únicos. Em muitos deles, técnicas ancestrais da tecelagem oriental são reinterpretadas com tecnologia de ponta.

    O resultado é tão revolucionário que é reconhecido internacionalmente por ampliar as fronteiras do design têxtil contemporâneo. 

    Fotografia mostra mulher japonesa olhando para um tecido transparente com textura. Outros tecidos aparecem ao fundo.
    A designer japonesa Reiko Suda em meio a alguns dos seus tecidos sustentáveis. Foto: Alisson Louback

    Adélia Borges, crítica e historiadora de design que assina a curadoria da mostra em parceria com a consultora Mayumi Ito, comenta: “me encanta essa qualidade do design japonês de se basear na tradição para dela extrair uma inovação muito grande. Não há rompimento, há uma continuidade.”

    A dupla de curadoras selecionou 35 tecidos para a exposição, com matérias-primas incomuns como fibra de bananeira, papel, aço inox, e plástico; ou convencionais, como seda, feltro, algodão e poliéster. As técnicas utilizadas na fabricação desses tecidos variam entre o manual e o industrial. Os toques poéticos ficam por conta de tingimentos feitos à partir de ferrugem, dobraduras em formato de origami e até mesmo da inserção de plumas.

    Foto de ambiente com grandes painéis de tecidos sustentáveis  pendurados.
    Na Japan House, os tecidos sustentáveis de Reiko Sudo foram expostos em grandes painéis. Foto: Alisson Louback

    A variedade e a beleza das tramas encanta o olhar e convida ao toque. Por isso, Adélia Borges e Mayumi Ito disponibilizaram, em um mural, pedaços dos artigos podem ser tocados pelos visitantes.

    A expografia, idealizada por Pedro Mendes da Rocha, explora o caráter ancestral da tecelagem na história da humanidade. Dos galhos de uma árvore estilizada, pendem os tecidos inovadores.

    A relação entre corpo humano e tecido remonta aos primórdios da civilização. O tecido é o primeiro abrigo do homem. Quando ele começa a se cobrir com peles de animais para se proteger do frio, cria a primeira interferência de design sobre o corpo”, explica Adélia Borges. 

    Tecidos sustentáveis e inovadores

    Em termos de sustentabilidade, há tecidos feitos com materiais que seriam descartados, como o kibiso, invólucro do casulo da seda, que por ser uma parte mais rígida, era usado apenas em produtos de baixo valor agregado. Através de pesquisas, a equipe da NUNO conseguiu que a fibra do kibiso chegasse a um décimo da sua espessura original, ganhando maciez,  flexibilidade e novas possibilidades de uso. Outro exemplo é o reuso de tecidos encalhados, reinventados numa espécie de patchwork contemporâneo.

    Foto mostra detalhe de tecido reciclado de feltro colorido.
    Tecido reciclado de feltro na exposição NUNO. Foto: Alisson Louback

    Por considerar essencial o processo de criação dos tecidos, Adélia Borges incluiu na mostra, vídeos e um mural, que exibem várias etapas da pesquisa têxtil. “Design não é uma inspiração que cai do céu, há um desenvolvimento, um método. Inclusive, vários desses tecidos possuem patentes, mostrando que há um grau de inovação muito alto”, diz.

    A programação contou, ainda, com o seminário Diálogos Nipo-Brasileiros – Poéticas Têxteis Contemporâneas. “Fala-se muito sobre os caminhos dos estilistas, sobre o design de mobiliário, mas não sobre tecidos. O têxtil é um tema muito pouco debatido”, diz Adélia. 

    Foto de tecido sustentável vermelho vazado
    Tecido sustentável feito com fitas. Foto: Alisson Louback


    Um versão dessa matéria foi publicada originalmente na coluna sobre moda sustentável do site BEMGLÔ.


  • Fotos proibidas

    Fotos proibidas

    Fotos proibidas foi o primeiro editorial de moda feito no Brasil com iPhone e o aplicativo Hipstamatic. A ideia do editorial é um triângulo amoroso, entre duas mulheres e um homem, visto através das fotos íntimas que “vazaram” no Instagram.

    Note, na paginação abaixo, que a matéria ainda está com texto falso.

    Clique nas imagens para visualizar a galeria de fotos.

    Fotos: Roberto Setton
    Concepção e edição de moda: Biti Averbach
    Styling: Betina Bernauer e Cinthia Kiste
    Beauty: Saulo Ramos
    Produção executiva: Juliana Tozzi

  • Nunca houve uma mulher como Rita Lee

    Nunca houve uma mulher como Rita Lee

    Fazer um editorial de moda com Rita Lee foi algo inesperado e inesquecível, afinal, ela não se deixava fotografar há muito tempo. Quando a vi chegando no estúdio, de jeans rasgado, camiseta larga e chinelos, achei sua figura um tanto frágil. Mas depois da maquiagem, e de vestir o primeiro look, o terno de couro azul metalizado, a roqueira brasileira mór apareceu com força total. Rita Lee, afinal, é senhora da própria imagem, e fez a foto acontecer num instante, com pleno domínio de palco, e um carisma inigualável.

    Clique abaixo para visualizar a galeria de fotos. 

    Editorial de moda: Nunca houve uma mulher como Rita, publicado na revista Quem Acontece – Editora Globo

    • Fotos: Paulo Vainer
    • Concepção e edição de moda: Biti Averbach
    • Styling: Dudu Bertholini
    • Produção de moda: Tica Bertami
    • Beleza: Duda Molinos
    • Assistente de produção: Juliana Tozzi
    • Produção executiva: Aliércia Pires
    • Texto e agradecimento especial: Guilherme Samora

    Dá para ver o making of da matéria neste vídeo.

  • Texto: O terno masculino e o zeitgeist

    Texto: O terno masculino e o zeitgeist

    Por 150 anos, o terno foi o traje do homem de negócios que se preza. Mas, e na era dos ambientes de trabalho criativos e do home office, há futuro para o bom e velho costume? Por Biti Averbach

    Símbolo de poder, força, sobriedade, elegância e virilidade, o terno é capaz de inspirar confiança e definir o lugar em que o homem se encaixa na sociedade. Padres, médicos, juízes e outras autoridades têm usado vestimentas escuras e camisas brancas para inspirar lisura e impor respeito há pelo menos 150 anos. Durante muito tempo, pouca coisa mudou na estrutura da roupa de trabalho masculina, composta por paletó, colete e calça, feitos do mesmo tecido. Aliás, é bom lembrar que a palavra “terno” refere-se a este trio; quando não há colete, a palavra correta é costume. Desde a revolução industrial, nos séculos 18 e 19, até os anos 80, no apogeu da cultura yuppie, era impensável que empresários importantes recebessem clientes em mangas de camisa.

    Não há dúvida de que a mudança da cultura corporativa que vem acontecendo nas últimas três décadas – que tem como tônica valorizar a inovação e a informalidade em oposição à tradição e ao formalismo – abriu espaço para um novo código de vestuário. A uniformidade dos ternos sóbrios tem perdido espaço para visuais mais lúdicos e criativos. Em certa medida, pode-se dizer que essa possibilidade de personalização por meio do vestuário sinaliza o triunfo do indivíduo sobre a corporação. Isso vai ao encontro das vivências da Geração Y, que cresceu com a internet, as redes sociais e a ausência de hierarquia entre chefes e subalternos, ou entre pessoas e empresas.

    “O uso do terno tem diminuído, por causa do aumento da informalidade nos locais de trabalho, mas o uso do paletó avulso aumentou. Ele é a peça mais importante do guarda-roupa masculino, hoje”, afirma Ricardo Almeida, um dos mais badalados estilistas de moda masculina. “O homem põe uma camisa, um jeans e, na hora de sair para um almoço, um compromisso mais formal, veste o paletó e está bem.” Outras novidades são as padronagens xadrezes e a presença do elastano nas camisas, e até mesmo nas peças de alfaiataria, apesar de certa relutância dos consumidores. “O homem só aceita mudanças no guarda-roupa quando elas são racionais. Se não tiverem uma razão aparente, são desprezadas”, diz.

    Mas, pasme, o conservadorismo e os trajes sombrios nem sempre foram a norma. “Durante a maior parte do tempo, na história da moda do Ocidente e do Oriente, o homem se enfeitou mais do que a mulher. E isso nunca foi considerado demérito, porque ele se espelhava na natureza, onde os machos das espécies são mais vistosos do que as fêmeas, para atraí-las e acasalar”, afirma João Braga, um professor de história da moda. Na corte francesa, por volta de 1750, o traje correspondente ao terno era composto por uma calça culote – um modelo curto e apertado que deixava pouco para a imaginação –, acompanhada de um colete e de um casaco ajustado ao corpo. “Eram peças extremamente luxuosas, cobertas por ricos bordados feitos à mão, com fios de seda. Já na Inglaterra, no mesmo período, os trajes da nobreza eram um pouco menos vistosos, pois eram confeccionados em lã”, afirma a historiadora Rita Andrade.

    Um fator determinante para a mudança foi a revolução industrial, que se iniciou na Inglaterra no século 18 e se espalhou pelo resto do mundo a partir de 1900. Por motivos práticos, a roupa masculina teve de se transformar, tornando-se mais funcional e confortável. Londres se tornou o epicentro da alfaiataria, e as cores escuras foram escolhidas por disfarçar a sujeira desse ambiente urbano recém-industrializado, com ruas ainda não totalmente pavimentadas e chaminés que expeliam a fuligem cinzenta do progresso. O homem não mais se impunha pela ostentação dos seus trajes, e sim pelo modo de produção capitalista. O terno, a partir desse momento, se consolida como o uniforme do capitalismo.

    Ilustração originalmente publicada na Época Negócios
    Ilustração originalmente publicada na Época Negócios

    A gravata, hoje um símbolo do conformismo, tem sua origem ligada à bravura dos mercenários croatas contratados por Luís 14 para lutar na Guerra dos 30 Anos. Os guerreiros impressionaram os franceses tanto por sua coragem quanto pelos lenços que usavam no pescoço, e a moda pegou. Acredita-se que a palavra francesa cravate seja uma corruptela de croate. “Embora a maior parte dos homens se contente em variar a amarração de nós entre o Windsor (ou Nó Inglês) e o Four in Hand (ou Nó Escorregadio), existem 181 maneiras documentadas de atar uma gravata”, diz Braga.

    Uma característica importante da alfaiataria é ser um método de construção artesanal que interfere no corpo de modo sutil, mas bastante preciso. Ela é, de fato, o único recurso no guarda-roupa masculino que possibilita remodelar a silhueta. Com seus enchimentos e estruturas, é possível estufar o peito, aumentar os ombros, disfarçar a curvatura das costas. A origem dessa técnica remonta à era medieval, quando os homens usavam peças estofadas por baixo das armaduras, para amortecer o contato com o metal.

    Entre a nova geração de estilistas brasileiros de moda masculina, o maior destaque é, sem dúvida, João Pimenta. Este mineiro de 43 anos exerce a atividade há oito anos e desfila há duas temporadas na São Paulo Fashion Week, causando alvoroço. “Não acho que os homens vão começar a usar saias longas porque coloquei isso na passarela”, diz ele. “Mas quero discutir a possibilidade de as roupas não serem tão quadradinhas.”

    Sobre o futuro do costume, Pimenta prevê que, daqui há dez ou 15 anos, os executivos se vestirão quase da mesma maneira como se vestem hoje. “Pode haver pequenas variações no corte e na proporção, mas o traje não vai se extinguir, porque é o que mais dá segurança ao homem”, afirma. Para Eduardo Motta, consultor de moda na Radar Consultoria, o vestuário corporativo tende a manter o padrão de neutralidade visual. “As maiores transformações serão internas, com dispositivos apropriados para os novos aparelhos eletrônicos ou inovações de tecnologia têxtil”, afirma ele. Ricardo Almeida vai mais longe. Para ele, o costume do futuro será térmico, podendo aquecer ou resfriar o corpo. Não amassará, não reterá odores e, quem sabe, não precisará nem mesmo ser lavado, graças a uma tecnologia autolimpante. “Assim, além de muito prático, o costume será ecologicamente correto, economizando água, energia e tempo”, diz Almeida.

    A sobrevivência secular do terno e seu poder de adaptação são impressionantes. Em suas inúmeras formas, o traje tem a capacidade de traduzir o espírito do seu tempo, o zeitgeist. Por sua construção técnica refinada, carregada de excelência, acaba por ser aceito de forma praticamente universal. No final, todos prestam reverência a ele. E, ao que tudo indica, continuarão prestando até onde se consegue enxergar.

    Texto publicado na revista Época Negócios em abril de 2011.

    UPDATE: no dia 31/05/15, o genial fotojornalista do New York Times, Bill Cunningham, publicou em sua coluna semanal On The Street, uma série de fotos de homens vestidos para trabalhar, muitos de terno, mas… sem meias. Cunningham comenta que, décadas atrás, os jovens tentaram eliminar a gravata do traje corporativo, sem sucesso. Agora, parece que a palavra de ordem, entre os fashionistas e descolados, é aposentar as meias. Será que pega? Veja as fotos clicando AQUI.

  • Não faça gênero

    Não faça gênero

    A Folha de São Paulo publicou hoje um caderno Especial de Moda em função dos 20 anos do SPFW.

    Minha contribuição foi um editorial de moda com peças do Verão 2016 –lançadas agora no evento, o que quer dizer que foi dificílimo consegui-las para fotografar.

    O recorte da matéria foi o estilo boyish, presente também nas passarelas internacionais. Costumes, coletes, acessórios pesados e o casamento do smoking com o corset, foram alguns elementos que se destacaram.

    Por falta de espaço, nem todas as imagens entraram na edição impressa do jornal. O que me dá mais um motivo para publicá-las aqui.

    Fotos: Rogério Cavalcanti
    Styling: Biti Averbach
    Beleza: Saulo Fonseca (Capa Mgt)
    Modelo: Gracie Carvalho (Way)
    Tratamento de imagem: Sandro Oliveira Iung
    Agradecimento: Heloisa Helvecia, pelo convite e pela confiança.